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29.5.19

Porque votei

Confesso que quase me tornei um abstencionista nestas eleições. Desde que tenho o direito/dever de votar apenas me abstive uma vez, no primeiro referendo sobre o aborto, por estar longe do meu local de voto. Em todas as outras eleições votei porque é o meu dever/obrigação, não deixar que outros escolham por mim e porque a liberdade de votar custou ao país e a toda uma geração um preço muito elevado para que hoje o possamos desperdiçar. Foi esse motivo, mais do qualquer outro, que me levou a votar e não contribuir para a marca recorde de cerca de 70% de abstenção.

Como eu, várias outras pessoas nutriam o mesmo tipo de sentimento nestas eleições europeias. Foi mais por descargo de consciência que uma verdadeira motivação. E porque motivo tantos tiveram a mesma sensação e, muito mais ainda, não foram sequer votar?

As eleições europeias são, habitualmente, aquelas em que a abstenção regista valores mais elevados, usada como forma de protesto ou por desconhecimento dos temas e real alcance da votação. A forma como as campanhas eleitorais são idealizadas levam a um alheamento da maioria das pessoas dos assuntos europeus, mesmo sendo estas as mais importantes eleições europeias desde que aderimos `U.E. em 1986. O Brexit, a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, e com a U.E., a crise dos refugiados, um sistema de defesa comum, a influência crescente da Rússia nos estados ex-URRS até agora pró-Europa, são motivos mais do que suficientes para não deixarmos a nossa escolha nas mãos de outros. E, se isto não bastar, que sirva de argumento os 9 milhões de euros diários de fundos comunitários que entraram em Portugal desde 1986. O mínimo era ir votar.

Quanto aos resultados nacionais houve para todos os gostos. Os esperados e nada surpreendentes e os verdadeiramente surpreendentes. A vitória do PS e a estagnação do PSD não foi surpresa uma vez que as sondagens já vinham a apontar para estes resultados, tal como a subida do BE só apanhou de surpresa os mais distraídos. Este braço da geringonça não fez uma campanha pela negativa, procurou introduzir os temas da europa na campanha, mesmo que pela rama, e não entrou nos ataques pessoais e daí tirou benefícios. Depois as três surpresas da noite eleitoral: o CDS, o PCP e o PAN. O último beneficiou do facto de entre os partidos mais pequenos ser aquele que mais visibilidade tem pelo deputado eleito na Assembleia da República, que se fez notar ao longo do mandato e beneficiou de um rótulo (errado) de partido ambientalista que não o é, cativando o eleitorado mais jovem e o mais preocupado com as questões ambientais. CDS e PCP foram os grandes derrotados da noite ao perderem deputados. O CDS terá que se queixar apenas do tipo de discurso de Cristas, demasiado centralizado nas questões nacionais, num tipo de campanha do “bota abaixo”, que lhe valeu passar para a quinta força política nacional, tal e qual o PCP que saiu fortemente penalizado destas eleições. O segundo braço da geringonça pagou um preço elevado por ter andado de mão dada com o governo. Os seus militantes não perdoaram o abandono da estratégia do partido de protesto e das causas sociais.

A ver vamos se no tempo que falta para as legislativas se conseguirá mudar a forma de fazer campanha e, sobretudo, o posicionamento do discurso face ao eleitorado.

Expresso de Felgueiras

11.8.14

Ainda agora cheguei e já vou.

Apenas cinco semanas depois de tomar posse no Parlamento Europeu, Marinho e Pinto, um dos dois eurodeputados eleitos pelo MPT, dá o dito pelo não dito, e abandona o cargo para o qual duzentos e trinta e quatro mil seiscentos e três portugueses o elegeram. Prometeu trabalhar como uma “formiguinha” (sic) que, pelos vistos, cansou-se depressa. Nem mesmo o facto de ter dito durante a campanha que iria para o Parlamento Europeu porque “a democracia está num processo de degenerescência” o segurou.
Afinal, diz ele agora que “os problemas nacionais são mais importantes que os Europeus” como se, quando ele para lá foi, não existissem os mesmos problemas.
Mas tudo isto tem uma enorme vantagem. Os portugueses que nele votaram perceberam o grande flop que Marinho e Pinto se revelou. As ambições elevadas pré-eleições, tiveram novo combustível com os resultados eleitorais. Marinho e Pinto percebeu que não podia deixar esmorecer algum do capital político que conquistou e regressa ao país para nova missão: ser eleito deputado. O pior é que no discurso completamente populista em que lhe é fácil o verbo, pode enganar, desta feita, uns quinhentos mil votos imprudentes de protesto contra os partidos tradicionais e ser eleito deputado abdicando desta vez passado umas quantas semanas, para ser candidato a Presidente da República. É que as eleições são seguidas e pode ir somando seguidores do populismo fácil. Marinho e Pinto não se compromete com nada nem com ninguém, apenas protesta, e quando protestamos em tempos difíceis, é muito fácil encontrar alguém que se reveja nas palavras. Também não faz nada, não se lhe conhece uma medida, uma proposta, ou outra coisa qualquer que tenha feito na Europa a favor dos portugueses, ou, pelo menos, dos seus eleitores. A única coisa pela qual Marinho e Pinto é conhecido é por ter tornado a Ordem dos Advogados num sindicato de protestos e de guerra pessoal contra a Ministra da Justiça.
O azar de Marinho e Pinto foi o timing escolhido. Tinha que ser este para a sua estratégia pessoal, mas defraudou muitos dos eleitores que não votarão nele, conquistando outros de certeza. Quem não deve estar a achar piada mesmo nenhuma é o BE e a ala mais à esquerda do PS. É que nas próximas legislativas, com as feridas ainda abertas na família socialista, haverá muita gente a protestar através do populismo.
Crónica de opinião 11/08/2014 no bomdia.be