17.6.05

Fim de tarde

Era um fim de tarde, como tantos outros. O sol no horizonte ainda queimava e aquecia as armaduras normalmente frias, como estátuas. Ali estávamos todos e à nossa frente alinhados, no fundo do campo, o exército inimigo. Tal como nós olhavam de soslaio uns para os outros, procurando um sorriso reconfortante como garantia de um regresso são e salvos, nenhum de nós sabia se voltava.
A tensão subia, as mãos já pingam do suor que escorre, chega o comandante vindo das linhas atrasadas, talvez tenha estado a estudar as últimas estratégias e tácticas para a refrega, junta-se às tropas. Os jovens da primeira linha sorriem descansados porque a morte está ali à sua frente e eles vão ter com ela. Não há emissários de tréguas a batalha é inevitável. Uns de negro outros de branco podíamos ser um qualquer exército. Começam as brancas, … peão d4.

14.6.05

O Homem Revolucionário

Pertenço àquela geração de Portugueses que não tendo idade para se lembrar da «Revolução» viveu e cresceu no pós-revolução a ouvir as notícias da RTP a preto e branco. Aí, Álvaro Cunhal tinha um aspecto mais temerário do que depois a cores. Tinha algo de arrojado, não sei se os olhos fundos por baixo das sobrancelhas carregadas, se as palavras determinadas, aguçadas que nem lanças, mas era um revolucionário. Ganhou o respeito dos adversários e o temor dos inimigos. Cometeu o erro fatal de tentar mudar o sentido da agulha, da direita cinzenta para uma esquerda vermelha. Apesar de discordar em absoluto com as suas ideias e projectos, foi um Homem. Agora faz parte da nossa História.